Retratos Pintados


Quando era criança via com um olhar curioso o retrato da sala da minha vó. No retrato estava minha bisavó, retratada em traje especial, rostinho corado e jóias à mostra. E na época, eu pouco entendia que tipo de fotografia era àquela. O tempo passou, e cresceu o meu respeito por esta, agora então arte, de recriar os retratos com pintura. No Brasil, a técnica teve início no século XVII e foi no nordeste, contemplando o universo estético do sertanejo. Estes retratistas, chamados também de bonequeiros ou puxadores, quando assumiam a condição de vendedores ambulantes, que com sentimento quase ingênuo saiam a convencer os casais, as viúvas e as moças solteiras a serem retratadas em grande estilo.


Após receber uma encomenda, o retratista seguia as orientações dos clientes. Os bonequeiros são incansáveis representantes de um ofício em extinção. Os retoques estéticos eram os mais pedidos, seguidos de roupas especiais e caras, jóias e cores vibrantes, em uma época em que as fotografias ainda eram em preto e branco. Além de recuperar memórias perdidas e fotografias mal tratadas pelo tempo, estes artistas recriam o improvável dentro de uma mesma imagem. Se o cliente quer uma foto ao lado de “padinho Cícero”, o cliente tem! Não era incomum quando as famílias pediam para retratar um falecido, fazendo-o ressuscitar, no leito de morte, ao serem retratados com olhos bem vivos.


O retrato pintado é pura ornamentação. E não eram raros os retratos terem aspecto de santo, ou crianças com imagem semelhante ao menino Jesus. Havia um joguete entre os retratistas e retratados, para se chegar ao consenso das mudanças e estilo. Se fizermos uma análise mais profunda do trabalho destes fotorretratistas, é possível os reconhecer como agentes do sonho brasileiro. Eles concretizam em imagens o deslumbre da ascensão social nordestina por meio de ternos, roupas caras e joias que os retratados talvez nunca tivessem acesso.


Existem certas “regras” estéticas comuns na realização da fotopintura, principalmente quando se trata de um cliente idoso: tirar todas as rugas do rosto; nunca pintar de branco os cabelos; evitar sombras, “ajeitar” roupas que pareçam exageradamente sensuais. As crianças devem se parecer com o Menino Jesus dos folhetos distribuídos nas missas; mulheres devem usar blusas monocromáticas ou estampas de flores e homens devem aparecer de terno e gravata.


Estes artistas intuitivos, reproduziam negativos, ampliavam em papel especial para receber tinta, pigmentavam e envernizavam as obras. A simplicidade do propósito destes retratos lhes garantia o sucesso. Hoje temos o nosso “fazedor de milagres contemporâneo”: o photoshop (além de outros programas de retoque de imagens). Não há quem não queira ser retratado sem os defeitos que lhes incomodam. Mas, será que tudo se banalizou? Que foi evolução da ferramenta? Que são distintas? Só sei que um belo trabalho, seja por quais ferramentas forem, devem levar prestígio e serem guardados historicamente.

1 comentários:

Eliz... disse...

Lindo esse post! Me deu uma saudade da minha vó ^^ ela e meu vô tinham um retrato desse e eu nunca imaginei que seria uma foto pintada =D Muito bom saber dessas curiosidades! Você é demais!

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